Quase onde estamos
Faz algum tempo ouvi uma história das que dão no que pensar, contada por quem viveu na Suécia (teria sido o Gabeira?), ou teve uma missão de trabalho por lá. Segundo conta o cidadão brasileiro, ao chegar de carro diariamente no estacionamento da empresa, em Estocolmo, passa a notar que os veículos ocupam as vagas mais afastadas da porta de entrada do edifício. Por que, pergunta-se, os que chegam mais cedo não estacionam próximo ao local de ingresso? O fato intriga-o sobremaneira, especialmente por causa das características climáticas do país, bastante frio durante a maior parte do ano. Abrir mão do privilégio de ocupar as melhores vagas implica obrigar-se a cruzar a pé uma distância maior, sob a inclemência do inverno boreal. Por fim, a curiosidade o leva a indagar a razão daquele comportamento coletivo a um colega de escritório. A resposta o deixa perplexo. Os que chegam mais cedo liberam as vagas junto à entrada do prédio em favor dos retardatários, a fim de colaborar para que não cheguem atrasados (ou tão atrasados) no trabalho. Na lógica sueca, se a pessoa está atrasada é porque teve algum imprevisto em casa, no caminho para a empresa, ou simplesmente é alguém sobrecarregado pela rotina doméstica. Para eles, faz sentido ser solidário nesse tipo de situação.
Ruminei durante algum tempo essa história, imaginando se nossa sociedade poderia um dia comportar-se de modo tão altruísta. Como chegar lá? Seriam necessários anos de educação cívica intensiva até formar uma geração imbuída de tais valores, capaz de transmiti-los aos filhos. Por um instante, vislumbrei essa possibilidade. Haveria, logicamente, que dobrar os céticos, rebatendo argumentos na linha do “nosso país é muito complicado”, “a gente não é sueco”, “não temos o inverno deles”... No entanto, tais obstáculos retóricos não seriam difíceis de superar. Além disso, partiríamos de condições não de todo ruins, afinal de contas a solidariedade é um traço vocacional nosso, que apenas precisaria ser reforçado e difundido.
Passados alguns meses, tive que levar minha filha do meio, na época com seis anos incompletos, à festa de aniversário de uma coleguinha de classe. O convite dizia que o local da festa era um espaço para eventos, situado num dos shoppings da cidade. Chovia a cântaros quando dei entrada na área de estacionamento, que, apesar de extensa, estava abarrotada de veículos. Encontrar vaga ali, só com muita sorte. Após percorrer a pista de baixo, no sentido de ida, contornei para tomar a de cima, no sentido de volta. Quase ao fim do longo trecho, avistei uma vaga. No mesmo instante, porém, surge uma caminhonete vermelha na contramão, ameaçando adonar-se do único espaço livre. Dentro da caminhonete, novinha em folha, divisei uma família: o pai na direção, a mãe ao lado dele, e um menininho no banco de trás, que me pareceu regular em idade com minha filha. Dei sinal de luz e avancei um pouco, gesticulando para sinalizar que eu estava no sentido correto, como se não bastassem as setas brancas pintadas no piso de asfalto do estacionamento. O homem atrás do volante hesitou. Estávamos num impasse. Buzinei, insistindo na preferência. Por fim, contrariado, o dono da caminhonete vermelha deu marcha à ré e pude colocar o carro na bendita vaga.
Deixei minha filha no aniversário, pois o salão de eventos era bem vigiado, e fui dar uma volta no shopping para fazer hora. Olhei vitrines, fiz um lanche demorado, explorei a livraria, até completar o tempo para ir buscar minha filha na festa. A chuva havia amainado um pouco. Percorremos o trecho até o carro abrigados pelo guarda-chuva. Antes de abrir a porta para ela, notei um arranhão na lataria. O risco se estendia por quase toda a extensão lateral do veículo. Acomodei-a no banco de trás e dei a volta, já suspeitando o pior. De fato, o lado do motorista também tinha a lateral arranhada. Contudo, não era um risco apenas, mas dois: um mais alto, outro mais baixo. Deduzi que o delito havia sido perpetrado em equipe. Um adulto riscou uma das laterais, munido de chave ou pedra, enquanto o cônjuge tratou de fazer o mesmo na outra, com a ajuda da criança. O mais chocante nessa história é o papel pedagógico dos pais, ensinando o filhinho a dar os primeiros passos na delinquência. Não se tratava de “gente sem instrução”. Pelo contrário, eram representantes de uma classe média abastada o suficiente para ostentar uma caminhonete recém-saída da loja. Teriam levado o filho àquela mesma festa de aniversário? Minha filhinha teria como colega de classe um aprendiz de vândalo?
Esse episódio aconteceu há mais de vinte anos, no alvorecer do século XXI. Ainda hoje me pergunto se desde então as coisas terão melhorado no plano da sociabilidade. Os sinais, infelizmente, não são alentadores.
Talvez não precisássemos chegar ao estágio de altruísmo social dos suecos. Aliás, ultimamente a Suécia vem enfrentando problemas de ordem pública por conta da admissão de um contingente importante de imigrantes, que chegam por lá com uma bagagem cultural e educacional diferente.
Nos bastaria, talvez, aprender a respeitar as normas de convivência em sociedade.
Especialmente quando vão no sentido contrário dos nossos interesses mais egoístas.


Bert, gostei muito da sua crônica, além de estar bem escrita me fez lembrar de várias coisas que presenciei nos meus 25 anos de Portugal. Que vire e mexe eu sempre me pergunto, por que a gente não consegue nem copiar o que deu certo pelo mundo a fora?
Você mencionou a educação dos motoristas, na Suécia, vou citar uns exemplo do motorista português. Um pedestre ao ficar parado na calçada, em frente da faixa de peões, o carro para. Não buzina e a pessoa travessa tranquilo, sem estresse.
Outra coisa interesse e a carta verde do seguro. Lá você pode pagar a vista o carro, mas senão fizer o seguro, você não tira o veículo da loja. A seguradora é da sua escolha, empresa ou banco, nada de estatal.
Nós 25 anos que lá viveu nunca assisti uma briga ou discussões no trânsito quando havia colisões. Ambos saiam do seus carros com as suas cartas verdes do seguro, faziam suas anotações, o boletim de ocorrência, e seguiam cada um para o seu destino.
Um grande abraço e tenha um ótimo fim de semana. Ass. JLMoreira
Infelizmente não acredito nem numa sociedade que chegue aos pés da que vive na Suécia. Infelizmente. Lendo seu texto, sua indignação de 20 e tantos anos atrás tornou-se minha hoje.