Meu fim
Um desfecho poético.
Fiz a
Façanha
De sobreviver
À morte de meu coração
Achei bonito virar zumbi
Inalar miasmas
Até rastejei
Por aí
Me exibindo em andrajos
De fantasma
Depois
Vieram pruridos
De reinício
Um pudor doentio
Escondia a febre
De um pulso
Que eu queria
Inerme
Resvalava
Na gosma
Da monstruosa
Sucessão das horas
Nos dias
Patinava a esmo
Então
Resolvi
Ser o fim
Pra mim mesmo
Contra o amor
Juntei forças
Investi
Lutei
Lutei muito
Jurei-
O
Morto
Me enlutei
Porém
Se
Reergueu no meu peito
Me
Retorcendo
Perplexo
Revoltei-
Me
Lutei
Lutei mais
Arquejei
Investi
Uma vez
E outra
Ainda
E
Resisti
Resisti
Resisti
...
Até que
...
Por fim
...
Felizmente
...
perdi
x-x-x-x-x-x-x-x
O poema faz parte do meu segundo livro de poesia, intitulado Nevoandeiro (ed. Kotter, 2022), escrito na época em que eu estava morando em Cabo Verde.
E aí, você já se sentiu assim? Felizmente se recuperou de uma forte desilusão amorosa?
Parece ruim quando a gente não consegue ser forte o suficiente para sepultar de vez o coração, não é? Mas essa “fraqueza” é o que nos permite seguir vivos (e não meros zumbis) e, por fim, poder amar novamente.

