Futuros clássicos - parte 2
Othario
Trago novamente a sinopse de uma história que, para desespero de alguns, poderá se transformar em obra clássica num futuro próximo. Como na vez anterior, trata-se de uma releitura de um velho clássico da dramaturgia à luz da sensibilidade contemporânea, onde os hábitos alimentares se tornaram campo de infindáveis e acalorados debates (como tudo mais).
Boa degustação!
Othario. Narrativa inspirada em tragédia shakespeariana, ambientada num bairro paulistano de classe média, onde convivem descendentes de imigrantes de diferentes origens.
Como sofresse de doença celíaca, Othario, filho de libaneses, crescera sob a proibição de comer esfihas, quibes, pães e doces árabes. Seu melhor amigo, o judeu Aziago, admirava Othario pelo esforço bem sucedido de contornar suas limitações alimentares. Ressalte-se, entretanto, que apesar de muito disciplinado com sua dieta, Othario nutria forte desejo por pães. Sabendo disso, Aziago dedicou-se a fazer um curso completo de padeiro só para aprender receitas que não provocassem nenhuma intolerância no sistema digestivo do amigo. Sua especialidade era um pão caseiro de milho, que ele assava e fornecia especialmente a Othario, semana sim, a seguinte também. Um belo dia apareceu na vizinhança uma família de origem portuguesa, cuja filha mais velha se chamava Dessêmola. A moça passeava pela rua com os braços de formato baguete à mostra, levemente corados, e um decote onde se abrigava um par de sonhos roliços recobertos de açúcar, com recheio de creme. Assim que Othario tomou ciência dos atributos de Dessêmola, ficou doidão. Ao perceber a mudança no comportamento do amigo, Aziago põe-se a monitorar seus passos. Usando de um pretexto qualquer para interpelar Dessêmola em seu passeio matinal diário, Othario convida a moça para uma visita à sua casa, uma das mais antigas e belas do bairro, onde teria o prazer de lhe oferecer um café à moda árabe. No dia da visita, Aziago aparece trazendo dois pães de milho numa sacola, um para o amigo e o outro para Dessêmola. A moça, no entanto, recusa o presente, afirmando só gostar de pão francês. A partir de então, Aziago passa a atormentar Othario com insinuações de que Dessêmola jamais se interessaria por quem não fosse francês, ou de que provavelmente mantinha uma relação com um francês às escondidas. Desesperado pela atenção de Dessêmola, Othario inicia um curso de francês pela internet e já nas primeiras lições começa a fazer biquinho para falar com ela. Estranhando o jeito diferente de Othario, a moça se volta para Aziago, que a essa altura tinha parado de fazer pão de milho e passado a produzir pães franceses, de diferentes formatos. Uma noitinha, Othario recebe um convite para ir até a casa de Aziago, onde encontra Dessêmola refestelada no sofá da sala em meio a um grupo de pães bengala. Escandalizado com a cena, Othario se atira sobre ela, no afã de retirá-la dali a qualquer custo. Aziago procura controlar o ímpeto do amigo, mas este o acusa de tentar desencaminhar sua linda amada. Aziago se defende, dizendo que apenas buscava abrir os olhos de Othario para a incompatibilidade entre ele e Dessêmola. Othario não lhe dá ouvidos e carrega Dessêmola embora. No caminho, decide mudar de tática: curvando-se aos caprichos dela, passa numa padaria e compra o estoque de pães franceses do local, mandando entregar a mercadoria com urgência em sua casa. Lá, graças a uma atmosfera dominada pelo aroma de padaria, seduz Dessêmola e os dois finalmente consumam sua união. Naquela madrugada, Othario sofre um ataque de congestão celíaca e cai fulminado no quarto de casal. No velório, Aziago consola Dessêmola, afirmando não ser culpa dela a relação tóxica com o finado amigo. Terminado o rito fúnebre, os dois combinam de preparar um pão de milho a quatro mãos para ir depositá-lo junto ao túmulo de Othario, a título de homenagem póstuma. Porém, quando o pão de milho emerge de dentro do forno, Dessêmola não resiste à tentação de prová-lo e logo se apaixona por aquele sabor diferente, até então desconhecido por puro preconceito seu. Num frenesi de gula, Aziago e Dessêmola reduzem a matéria da homenagem póstuma a deliciosas fatias quentinhas recobertas de manteiga com sal, devorando-a por inteiro. Dali em diante, os dois passariam a saborear juntos todo tipo de pães e, também o que mais lhes desse vontade.
N.A.O texto integral de Futuros clássicos está no livro “Sem pé com cabeça - crônicas do século 21” (Labrador, 2023).

