Futuros clássicos - parte 1
Queijosé e Goiabeta
Com base nas tendências culturais dos últimos tempos, atrevo-me a apresentar a sinopse de histórias que talvez – para terror de alguns – sejam consideradas novos clássicos num futuro próximo. As narrativas têm em comum o fato de se inspirarem em pérolas da dramaturgia, incorporando elementos de correntes modernas de ideias e valores – em particular, nos exemplos apresentados, elementos do universo da gastronomia, um dos temas que mais divide e apaixona as opiniões na atualidade.
Boa degustação literária!
Queijosé e Goiabeta. Inspirada em conhecida tragédia do famoso bardo inglês, esta narrativa contemporânea está ambientada numa região de antiga colonização italiana de um dos estados do sul do país.
Queijosé se orgulhava de descender da mais pura nata caprina, embora não de cabra macho, que fique bem claro. Em meio à fase de maturação, apaixona-se por Goiabeta. Esta, em resposta, se ruboriza toda por dentro ao sentir-se apetitosa pela primeira vez. Os parentes de Queijosé escandalizam-se e não aceitam a mistura: onde já se viu alguém elaborado como ele interessar-se por uma desfrutável, facilmente encontrável por aí em qualquer terreno, mesmo naqueles sem título de propriedade? A família de Goiabeta tampouco aprova essa combinação impensável: afinal, que frutos poderiam resultar disso? Não obstante as opiniões alheias, Queijosé decide encontrar-se com Goiabeta ao entardecer, no balcão de granito da cozinha. Nervoso, suando soro salgado, ele se declara nos termos mais poéticos, enaltecendo a doçura da amada. Excitadíssima, Goiabeta rola num tapete de açúcar para fazer-se ainda mais atraente a seu cortejador. Requeijoão, uma versão amolecida do primo Queijosé, por quem nutre certa hidrolatria, surpreende o casal no momento de sua conjugação. Ao ver o primo no balcão da cozinha, estendido sobre Goiabeta, toda adocicada, a natureza fundida de Requeijoão faz com que se sinta ultrajado. Para vingar a honra e as cores branco-amareladas da família – e se livrar de vez das comparações de marketing em relação ao primo – resolve cometer um laticínio. Secretamente, Requeijoão vai até o estábulo e lá recolhe, entre vacas, elementos para uma poção letal: um extrato de salmonela. Em seguida, sai a chamar Queijosé, gritando para que venha provar o “tônico revigorante” preparado por ele, enquanto o frasco, com seu maldoso conteúdo, jaz sobre o balcão da cozinha. Acreditando tratar-se, de fato, de um suco de propriedades revigorantes, Goiabeta ingere o produto por inteiro. Quando retorna, trazendo consigo Queijosé, e vê o frasco da poção vazio, Requeijoão sofre um acesso de tremeliques tão forte que o faz despencar da borda do balcão. Aplastado no chão, entre os cacos do popular traje de vidro, Requeijoão confessa seu plano criminoso enquanto agoniza, aguardando o pano úmido que o removerá dali para a dissolução final. Chocado e confuso, Queijosé tenta aproximar-se de Goiabeta, mas esta o repele: não deixará o amado contaminar-se com o caldo de salmonela a impregná-la. Queijosé se afasta, acabrunhado. Passam-se os dias, até que, de tanto maturar, tem uma ideia genial: bastaria cozinhar Goiabeta em fogo lento, adicionando açúcar, de modo a transformá-la em verdadeiro confeito, e ela sairia do processo purificada, sem nenhum resquício do suco letal. Emocionado, Queijosé corre até o pomar para revelar seu plano à amada, mas encontra Goiabeta muito mudada. À diferença daquela por quem se apaixonara, esta agora nem liga para a presença dele. Como que encantada, se vê concentrada nos movimentos de um bichinho branco, que se contorce e se arrasta na superfície da pele acetinada, sumindo vez que outra num mergulho para ir alimentar-se de suas entranhas. Enojado, Queijosé assiste à doce Goiabeta rir-se das cócegas que lhe provoca o tal bichinho esbranquiçado – ao que parece, muito mais divertido do que ele próprio.
N.A.: “Futuros clássicos” pode ser lido integralmente em “Sem pé com cabeça - crônicas do século 21” (Labrador, 2023).

