Fumaça, nem da paz
Dia desses quase perco a cabeça com uma chaminé ambulante, cuja petulância se escancarou ao sentar-se à mesa vizinha e, ato contínuo, acender um artefato cancerígeno enquanto eu mal começava a saborear o café-da-manhã. Como reagir ante o cúmulo da desfaçatez? Sim, porque ninguém em sã consciência deveria ser capaz de ignorar o que há de irreconciliável entre bem-estar e cigarro, alimentação e fumaça tóxica, higiene mental e poluição.
O absurdo que é ficar-se engasgado numa varanda, o mar uns cento e cinquenta metros à direita, o ingênuo prato de tapioca à frente, acompanhada de ovos mexidos mais a indefesa xícara de café com leite. E ainda ter que ouvir o sotaque afrancesado do criminoso, como se expelido do cano de descarga de um veículo de marca gaulesa. Vontade de encostar ali e declarar que a nossa matriz energética é das mais limpas do mundo, que por aqui já não se aceita a queima diária individual de cilindros de papel preenchidos com composto de tabaco envenenado quimicamente.
Mas não é bem assim, eu sei. Toleram-se fumantes nas varandas sem importar o regime de ventos. Azar de quem não se compraz em tragar e exalar o repulsivo coloide aéreo contra o ar marítimo, aquele que se gostaria de inalar de forma descontaminada. Enfim, não somos tão restritivos no que concerne ao tabagismo, particularmente em varandas abertas, próximas ao mar, o qual, sendo uma das lixeiras do mundo, decerto aceitará mais esse ultraje: baforadas fétidas a adulterar o seu próprio hálito. Ademais, se visto de frente, nosso perfil ambiental inclui secas no Amazonas, enchentes no Sul, queimadas em áreas florestais cada vez maiores, onde se erguem cortinas de fumo: sinais de mau agouro, metáforas da desolação. E tem gente que gosta, que procura, que ao não achar fabrica, produz.
Minha desforra, no entanto, não tardou a chegar.
Noite dessas, dei um jantar para vinte pessoas; entre os convidados, apenas um fumante. Retirei os cinzeiros da sala, onde os que chegavam eram recebidos com um drink de boas-vindas. Durante a comida, o inveterado aguentou-se como pôde, evitando sacar a arma letal do bolso. De volta à sala, disparou:
- Você se importa que eu fume?
- Me importo, sim – respondi, seco. – Aliás, não só eu, todos os demais também!
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(Crônica finalista do prêmio Off Flip 2025.)


Se eu fosse uma das convidadas, ficaria difícil segurar a vontade de bater palmas vendo a cena