Firulas mítico-sociológicas
A eliminação do Brasil nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 de futebol masculino me fez recordar a análise do Dr. Raul Reis acerca do desempenho brasileiro na Copa de 2014. Para quem ainda não sabe, o Dr. Raul Reis é um psicossociólogo brasileiro, autor do livro Megaegos , em que apresenta os inovadores conceitos de bolha megaegogênica, conarcisismo (primário e secundário), assim como os fundamentos da terapia de desilusionamento a partir de uma abordagem sociopsicofilosófica por ele desenvolvida. É também pioneiro em análise sincronística da realidade e no estudo da influência antissincrônica dos megaegos no contexto sociopolítico nacional. Não posso deixar de informar, entretanto, que o Dr. Raul Reis é personagem de ficção, aparecendo como protagonista em Sincronicidades (in Fict-Essays e contos mais leves - ed. Labrador, 2020) e como figurante na distopia humorística Antes do fim do riso (ed. Oito e Meio, 2024), meu romance de estreia.
A seguir, trecho do conto mencionado:
“(...) No caso da Copa de 2014 de futebol, assim como no da tragédia ambiental de Mariana, ficou claro, desde o princípio, para o Dr. Reis, que o abalo provocado repercutiu, fundamentalmente, sobre a autoimagem e a autoestima nacionais. Para poder captar o estrago causado pela ferida psíquica coletiva, fazia-se mister compreender que tanto o futebol quanto o meio-ambiente possuem extensa dimensão simbólica, cumprindo função mítico-sociológica importante no reforço e na manutenção do sentido de nacionalidade entre os brasileiros. Ciente disso, o Dr. Reis, cuidando de emprestar maior consistência a suas análises, recorreu ao trabalho do brasilianista norte-americano Joseph Blurying, quem, além de desenvolver o inovador conceito de “adesão mítico-sociológica”, ainda inventara um coeficiente para medi-la, o qual era aplicado sobre uma escala de -3 a +3 (sete graus, incluindo o zero). Na visão de Blurying, toda sociedade, além de criar suas mitologias próprias, possui uma dinâmica particular de adesão a elas. Sob a influência de inúmeros fatores, o grau da adesão mítico-sociológica, medido pelo coeficiente de Blurying, varia para cada momento distinto na história da sociedade. Quanto maior o valor do coeficiente, mais forte a aderência à mitologia em questão, e vice-versa. Se uma determinada mitologia sofre abalo significativo, a sociedade perde autoconfiança nos aspectos que estão, ali, miticamente representados; dependendo da força do impacto, as repercussões podem gerar trauma grave, levando, às vezes, à perda de coesão social, ou, então, ao agudo declínio da energia vital coletiva. Em ambos os casos, passíveis de ocorrer também de forma combinada, diferentes cenários, todos negativos, podem emergir: episódios de convulsão interna, marcados por doses variáveis de violência; diminuição da capacidade empreendedora, com redução da taxa de investimentos e aumento do índice de desemprego; elevação dos níveis de permissibilidade a vícios e atitudes antissociais; maior prevalência de crimes etc..
Ao aplicar o ferramental de Blurying na análise dos desastres nacionais, o Dr. Reis logrou divisar, com maior nitidez, suas respectivas implicações. Deteve-se, primeiramente, na Copa do Mundo de 2014. A premissa fundamental, neste caso, foi a de que, no plano mítico-sociológico, o futebol, sobretudo quando se trata da seleção canarinho, constitui espelho das qualidades e potencialidades brasileiras. A grande partida simbólica jogada no futebol seria, então, a das qualidades mítico-sociológicas nacionais contra as adversidades externas, incluindo-se nessa categoria o subdesenvolvimento econômico. As qualidades “escaladas” para disputar a partida eram aquelas típicas do brasileiro, estabelecidas pela cultura popular, tais como o engenho, a espontaneidade, o humor, a malícia, a esperteza, o otimismo, o oportunismo, a imprevisibilidade, a impulsividade, a incoerência, a ousadia, a fugacidade – enquanto outras ficavam em segundo plano, como se mantidas no banco dos reservas. Sem as qualidades titulares, de natureza macunaímica, inatas, espontâneas, e tidas como características da alma nacional, não teriam existido os dribles picarescos do Garrincha e do Ronaldinho Gaúcho, as surpreendentes arrancadas e costuras em zigue-zague do Ronaldo Fenômeno, os passes mágicos do Sócrates e do Falcão, as jogadas espetaculares do Zico, nem os mil gols do Pelé. Porque o futebol não é um esporte como outro qualquer, em que o repertório de ações e variações é reduzido. No futebol, onde o espaço físico em que se dá a ação é grande, assim como também o número de jogadores, as múltiplas interações possíveis são incalculáveis, havendo ampla margem para os lances individuais, e infinitas possibilidades e graus de composição entre o individual e o coletivo. De fato, o engenho, a invenção, a “malandragem” – essa síntese popular entre malícia, esperteza, oportunismo e ousadia – intervêm consideravelmente nos resultados do futebol, em dose seguramente maior do que em outros esportes.
Na Copa de 2014, o suplício impingido ao Brasil pela Alemanha configurou-se como auge do anticlímax que começara a delinear-se já na partida inaugural, na forma de agourento gol contra, primeiríssima obra da seleção no torneio, e fora crescendo à sombra de uma campanha pouco entusiasmante do escrete nacional. O enorme investimento moral na candidatura do Brasil como país anfitrião, somado a todo o tempo, dinheiro e esforço investidos na organização do evento, reforçara a expectativa de êxito, já naturalmente elevada entre os brasileiros quando se trata de Copa. A reversão brutal de tais expectativas, mediante a cataclísmica vitória alemã na semifinal, projetou no imaginário coletivo sérias dúvidas quanto à capacidade do Brasil de trazer a campo as qualidades pátrias. E mais, o descrédito chegaria ao ponto de se questionar se tais qualidades já não estariam, agora, obsoletas, revelando-se insuficientes para a conquista dos resultados de outros tempos, ou, em termos simbólicos, mostrando-se, doravante, incapazes de atualizar o potencial brasileiro de superação das adversidades externas. Por isso, na opinião do Dr. Reis, é muito razoável supor, dada a violência do abalo, que o episódio tenha feito o coeficiente de adesão mítico-sociológica despencar a -3, o grau mínimo da escala. (...)”
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E aí, concorda?
P.S. A análise completa do Dr. Reis sobre as repercussões mítico-sociológicas e as implicações sincronísticas do fracasso da seleção brasileira, do desastre ambiental de Mariana (MG) e da Operação Lava Jato você encontra em Sincronicidades, um dos sete contos de Fict-Essays e contos mais leves, livro que marcou a minha estreia na ficção.

