Encontro
Do assento junto à mesinha costumeira, Tomas Chopim contemplava o mar para além da zona de formação das ondas. Era o começo do verão, já o calor exigia uma bebida gelada. Inclinando levemente o copo que retinha colado aos lábios, Chopim verteu um pouco do líquido garganta abaixo. Porém, o desejado refrigério viu-se contrariado por uma sensação ebuliente, que lhe trespassou as entranhas no avançado da manhã. Percorrendo o trecho de calçada rente ao bar, uma escultura de bronze maleável locomovia-se em direção à praia, de costas para ele. Segundo seus cálculos – pouco fiáveis porque mentais, além de afobados – a garota devia medir mais do que ele próprio em altura, embora portasse uma circunferência abdominal muitíssimo menor, coisa indiscutível à vista do modo como as ancas se ligavam com sutil sinuosidade ao tronco esguio, sugerindo o trabalho de mãos invisíveis na moldagem da cintura e dos volumes semiglobosos evidenciados logo abaixo.
Conforme ocorria em ocasiões imprevisíveis, Tomas Chopim tamborilou na madeira da mesa, para logo cantarolar uma linha melódica. Nii-na, nãnãnananii-na, nanina nanãã-nã... Ei, isso não está mal – pensou. Enquanto compunha a melodia, resolveu convocar dois de seus amigos das artes musicais, letristas da pesada, para que viessem emprestar carnadura poética à peça. “Venham rápido”, pediu ele, “pois quero a canção concluída antes do cair da tarde”. Embora sem saber os pormenores do que se passava, os dois amigos, habituados àquele modo enfático de se comunicar, atenderam ao apelo do estimado Chopim.
O primeiro a chegar foi Vinícolo de Novaes, com seu velho calção de banho, camisa de linho branca de mangas curtas, meio desabotoada e salpicada de suor. Sentando-se à direita de Chopim, indagou o que havia de tão urgente para fazê-lo enfrentar o calor das doze horas. Àquela altura, Chopim já havia finalizado a melodia. Antes de apresentá-la, teve que esperar o amigo pedir ao garçom:
- Traz um canídeo engarrafado; mas que venha do polo norte, pois hoje a canícula está braba!
O garçom, conhecedor do código para a dose dupla de uísque com três pedras de gelo, apenas respondeu “pode deixar, doutor” e foi buscar a bebida. Chopim não segurou a risadinha; adorava as frases originais do amigo Vinícolo, e essa, comparando uísque a cachorro, só que engarrafado, era irresistível.
- E essa voz de barítono subaquático, depois de meia dúzia de cervejas estupidamente geladas?
- Melhor que a sua, que se parece com a de quem habita uma pipa de vinho vazia.
Essas provocações eram comuns entre eles; uma espécie de invocação preparatória à sessão de talento artístico que viria a seguir. Assim que o uísque chegou, Chopim cantarolou a melodia para os ouvidos poéticos de Vinícolo. Como o amigo se mostrasse pensativo, inquiriu-o com o olhar.
- Me soou como uma peça do Glenn Miller. Tem certeza que não é plágio?
- Que Glenn Miller o quê, Vinícolo! Fiz agora; não é jazz, não. É pura bossa-nossa!
- Tá bem, meu Xangô, não se ofenda. Vejamos o que o nosso amigo ali vai dizer – ponderou Vinícolo, apontando na direção de Kiko Conhaque d’Yolanda, que vinha chegando.
Kiko Conhaque instalou-se à mesa com aquele seu sorriso característico, como se a tampa do teclado de um piano vertical novinho em folha fosse retirada de repente. Depois dos gracejos habituais, e de ver diante de si o copinho de cachaça, ouviu atentamente Chopim cantarolar sua nova melodia. Ao final comentou, para desconcerto de Vinícolo:
- Vai dar uma bossa-nossa das boas! O que te inspirou, Chopim?
Contente em ver superada a questão acerca do possível plágio, Chopim descreveu a visão que tivera da escultura ambulante de bronze maleável, caminhando em direção à praia, de costas para ele.
- Então, na volta do mar ela irá passar de frente pra nós – concluiu Kiko Conhaque.
- Temos que fabricar logo essa letra – exclamou Vinícolo, pedindo que lhe trouxessem outro cachorro engarrafado, de bom pedigree.
Chopim confessou sentir-se como que golpeado por uma força da natureza. Subjugado, disse ele, e isso sem que o seu olhar tivesse encontrado o dela.
- É como uma lua, que chega de repente e flutua no céu, inatingível – declamou Vinícolo.
- Se ela passar de frente para mim, posso cometer uma insensatez... – confessou Chopim.
- É, meu irmão, são demais os perigos dessa vida pra quem tem paixão; mas vai sofrer, vai, vai penar!
- Acho que vou mesmo é pegar um avião e levar o meu coração pra longe, pra não ter que queimar todos os meus navios.
- Vai pra Angola – sugeriu Conhaque d’Yolanda. – Lá tem cada morena... todas com chocalho amarrado na canela.
- Todo mundo sabe que a minha música não é de levantar poeira, Kiko. Aqui, quem é chegado num samba, além de você, é o Vinícolo. Sou o único parceiro dele que não é sambista.
- Tá com inveja dos violonistas bons de síncopa que eu arranjei?
- E por que teria, Vinícolo, se a minha música combina perfeitamente com a garota dourada, que passou a caminho do mar?
- Que tal se a gente inventasse uma história em torno dela, só pra deixá-la mais normal, menos inacessível? Ela podia se chamar Genilda, por exemplo, e ser uma prostituta desprezada por todos, mas que salva sua cidade da destruição num sacrifício altruísta.
- Genilda não, Kiko, tenha dó! E prostituta, ainda por cima? Essa molecagem sua me faz pensar que você é ainda muito jovem para estar nesta mesa, não acha, Vinícolo?
- Sei lá, Chopim, a vida tem sempre razão... Até que a ideia de se inventar uma personagem não é má. Podia ser uma mulher traída pelo seu homem, que se cansa e abandona o lar, enquanto o marido, vendo tudo desmoronar, se dá conta de haver queimado a regra três.
- Vou te contar! Os olhos de vocês não viram o que eu vi e não podem entender o que só o coração pode saber – rebateu Chopim. – Agora, se for para pensar num nome, tem que ser algo musical, assim como Dindom, ou Dindim. Um nome que é como um sinal sonoro, destinado a anunciar uma visão: a coisa mais linda que existe, se equilibrando entre a realidade e o sonho.
No intuito de contestar o argumento sobre ser demasiado jovem, Kiko Conhaque acabou discorrendo sobre um Zepelim gigante, que surgia e carregava a garota embora
em troca da segurança da cidade. Foi nesse ponto que Vinícolo de Novaes interveio, estarrecido, agarrando com força o antebraço dos dois amigos, o olhar fixado na direção do mar, de onde a estátua de bronze maleável retornava para fazer sua aparição entre requebros, em versão frontal, diante do grupo.
- Olha, que coisa mais linda... – balbuciou Tomas Chopim.
- É ela, dourada, que vem e que passa... – agregou Vinícolo de Novaes.
- Ah, por que sou tão novinho... – completou Kiko Conhaque d’Yolanda.
E assim se compôs “A garota de Itapoã e o Zepelim”.


Muito divertido, Bert. Até ouvi a música por aqui…