Alheados
Neozumbis e outros tipos estranhos
Será impressão minha ou proliferam casos de indivíduos que agem como se vivessem uma existência avulsa, desconectada do resto? Até onde entendo, o coletivo humano é formado por gente que, no fim das contas, compartilha a nau em que estamos todos embarcados. Resguardados os aplausos e as críticas, não se deveria desconsiderar, muito menos desprezar ou desrespeitar, quem nos cerca, a menos que nos deem motivo, é claro.
Em tese, uma elevada proporção de indivíduos alheados pode converter-se em fator de precarização do convívio social. Como consequência, a sociabilidade vai-se tornando cada vez mais rarefeita.
Seria esse alheamento – essa miopia, ou mesmo cegueira, em relação ao outro – um dos males do século XXI? Embora não ouse afirmar com certeza, creio haver identificado ao menos sete tipos de alheados, que descrevo a seguir.
1) Neozumbi. É o tipo que não sobrevive sem que fones de ouvido estejam enterrados em suas orelhas. Até um tempo atrás, quando os fones se prendiam aos celulares por meio de fios, era fácil reconhecê-los. Hoje ficou praticamente impossível, pois a tecnologia blue tooth torna os aparelhinhos quase imperceptíveis. Você só reconhece um neozumbi quando o cumprimenta e ele passa reto, rígido e mudo como uma estátua, com o olhar fixo em algum ponto impreciso, numa projeção retilínea a partir do próprio nariz. Dia desses eu cruzei com um deles na academia de ginástica (a neozumbilândia). Eu ia subindo e ele vinha descendo a escada, com o cadarço do tênis desamarrado. Avisei para ter cuidado, mas ele ignorou o meu gesto de civilidade. Estranhei, pois a incivilidade ainda me causa espécie. Felizmente, antes de desejar que tropeçasse no cordão do tênis, enxerguei as milimétricas hastes brancas dos fones saindo de suas orelhas e me dei conta de que se tratava de um neozumbi.
2) Motorista bivagal. Caracteriza-se por não perder a oportunidade de ocupar duas vagas de estacionamento com seu veículo. Habitualmente furtivo, prefere efetuar suas manobras antissociais em horários de baixa circulação. Os bivagais exibidos costumam centralizar o carro em cima da linha divisória entre as vagas, de modo a ocupar cada uma com metade do veículo. Já os tímidos invadem uma pequena fração da vaga vizinha, apenas o suficiente para impedir que outro carro venha a estacionar ali. O motorista bivagal é considerado um tipo difícil de flagrar. Câmeras de segurança e vigias de estacionamento têm-se provado insuficientes para coibir essa forma de alheamento social.
3) Melomanocêntrico neurótico (vulgo: meloneura). Esse indivíduo tem o hábito de escutar música no celular em lugares públicos sem se preocupar em usar fones de ouvido. Você tenta ler um livro num voo que irá durar horas, ou conversar com alguém numa sala de espera, mas não consegue porque a música do maldito celular perto de você não deixa. Alguns pesquisadores consideram o meloneura como um neozumbi desprovido de fones de ouvido. Eu, particularmente, discordo dessa classificação, pois os meloneuras podem reagir a estímulos externos ocasionais, o que não ocorre com os neozumbis. Uma tática que eu próprio já empreguei, em duas ocasiões, é a imitativa. Da primeira vez, eu aguardava num dos portões de embarque do aeroporto e um meloneura veio sentar-se quase em frente. Depois de alguns minutos de tortura sonora (normalmente eles têm um péssimo gosto musical) eu fiz o mesmo com o meu celular. Meu som colidiu com o dele, produzindo um efeito cacofônico que o deixou desconcertado. Felizmente, ele diminuiu o volume a um nível razoável e eu, de minha parte, fiz o mesmo. Da segunda vez, não funcionou tão bem. Foi na academia de ginástica, onde um sujeito soturno fazia esteira ouvindo música no celular. O volume estava alto, a canção era erótica, e além de nós havia ali uma garota saindo da adolescência. Agarrei meu celular e revidei com uma seleção de jazz no Spotfy. Subi o volume tanto quanto minha consciência social permitiu. A música erótica continuou na mesma altura, e a adolescente ainda me dirigiu um olhar de reprovação.
4) Melomanocêntrico psicopata (vulgo: melopata). O melopata está para o meloneura assim como o serial killer está para o batedor de carteira. O tipo psicopata de melomanocêntrico é aquele que liga o som do carro estourando junto a locais apinhados de gente, tais como bares, pubs, praias e clubes. Às vezes ele chega numa pick-up de caçamba aberta, carregando caixas de som ligadas no volume máximo, infernizando a vida de uma vizinhança inteira. Esse nível elevado de alheamento social, de viés fortemente autoritário, implica uma carga de agressividade acima da média, o que torna desaconselhável qualquer iniciativa de abordagem pessoal. O melopata deve ser combatido por meios policiais, se possível mantendo-se o anonimato. A outra opção é evadir-se do local.
5) Tabagista comensalicida. É o sujeito que não se furta ao prazer de fumar em locais consagrados à alimentação. Enquanto ele(a) se deleita entre exalações nauseabundas, os comensais ao redor se veem forçados a engolir fumaça misturada à comida. O prazer da refeição se degrada, juntamente com a saúde dos fumantes passivos. Mas nada disso importa ao tabagista comensalicida, desde que possa emitir suas baforadas enquanto vai acendendo um cigarro atrás do outro, numa cadeia tóxica sem fim. Mas atenção: tabagistas comensalicidas podem revelar-se charmosos e sedutores; portanto, cuidado para não terminar confundindo fumaça com tempero.
6) Egocêntrico dialógico. É o tipo que finge conversar com você, mas na verdade só está interessado em falar dele próprio. Você o escuta pacientemente, durante vinte minutos, contar cada detalhe da última viagem que fez para um lugar que você conhece melhor do que ele; aí, quando você tenta comentar sobre uma das vezes em que esteve nesse mesmo lugar, ele te corta e passa a falar do estado de saúde da mãezinha enferma, ou do livro que nunca leu mas detestou.
7) Telegocêntrico. É quem se vale de fones de ouvido conectados ao celular para manter um diálogo em voz alta, em que ninguém em volta sabe o que está dizendo o indivíduo do lado de lá da chamada, mas todos ouvem muito bem o que diz o do lado de cá. Os que se encontram no recinto passam a figurar como plateia da ligação. Caso questionado, o telegocêntrico alegará estar trabalhando de forma remota, ou seja, permitindo-se ser produtivo enquanto prejudica a produtividade ou o ócio alheios.
Seguirei atento ao surgimento de novos tipos.


Adorei! (A descrição, não a situação descrita, que me incomoda bastante). Tenho convivido com alguns meloneuras e lido com neozumbis em sala de aula 😕
Muito bom, Bert! Tem um quê de machadiano seu texto. O que mais me incomoda é o Tabagista comensalicida, mas o meloneura também me desconcerta.